Alimentação para diabéticos

Com Dr. João Ramos

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Convidámos um especialista para nos ajudar a distinguir as verdades dos mitos, no que toca à alimentação para diabéticos. Descobrimos que o mais importante nesta mesa, como nas outras, é variedade e moderação.

Alimentação saudável é crucial

VERDADE: Para os diabéticos, a alimentação saudável faz parte do tratamento – assim como o exercício físico -, e amplia a eficácia da medicação (antidiabéticos orais ou insulina). E as recomendações não diferem muito da alimentação que qualquer outra pessoa deve fazer.

Os principais objetivos passam por conseguir controlar a glicemia, colesterol, triglicerídeos, pressão arterial e atingir e/ou manter um peso saudável, de forma a prevenir o aparecimento de complicações.

Para reduzir estes fatores de risco, recomenda-se uma baixa ingestão de gorduras e de sal, e um maior consumo de alimentos com fibra.

Só são permitidos cozidos ou grelhados

FALSO: Hoje em dia, a alimentação das pessoas com diabetes não tem de ser tão restritiva e monótona como antes, muito associada apenas aos cozidos e aos grelhados.

Existem muitos métodos de culinária saudável que se poderá, ou mesmo, deverá, experimentar, de forma a variar mais a dieta e a obter uma maior riqueza em nutrientes.

No entanto, como medida preventiva do aumento excessivo de peso e de doenças cardiovasculares, os fritos e os pratos com molhos gordurosos deverão ser pouco frequentes.

Contabilizar a ingestão de alimentos é importante

VERDADEIRO: Uma alimentação saudável e equilibrada deve ser variada e incluir as porções corretas de nutrientes. A Roda dos Alimentos indica-nos quantas porções de cada grupo devemos ingerir, no entanto, devem levar-se em conta fatores como a constituição física e o nível de atividade física de cada um.

É importante que a ingestão dos alimentos seja fracionada, isto é, que se façam pequenas refeições ao longo do dia (entre 5 e 7 refeições). Devem incluir-se alimentos ricos em fibra, como o pão de mistura ou centeio, flocos de aveia e leguminosas (grão, feijão, ervilhas, favas, lentilhas).

As fibras são importantes para todos, mas especialmente para diabéticos, já que permitem diminuir a glicemia após as refeições, reduzem os níveis de colesterol, aumentam a saciedade e auxiliam o bom funcionamento do intestino.

Existem outros aspetos que ajudam a pessoa com diabetes a manter os seus níveis ideais de glicemia, como por exemplo aprender a contabilizar os hidratos de carbono.

As pessoas com diabetes não devem comer fruta

FALSO: A fruta e os legumes devem ser consumidos diariamente por todos. A fruta é extremamente rica em vitaminas, minerais, fibras e antioxidantes e faz parte de uma alimentação saudável e equilibrada, desde que ingerida em quantidades adequadas.

Efetivamente, contém açúcar (frutose) e, por isso, é importante que o consumo seja moderado. Por exemplo, não convém beber um copo inteiro de sumo de laranja (que terá uma elevada quantidade de frutose), mas também não é necessário ter medo de comer fruta.

No caso dos frutos com mais açúcar, como uvas, bananas, figos ou dióspiros, o ideal é ingeri-los em menor quantidade.

Há gorduras más e boas para os diabéticos

VERDADEIRO: Esta é uma realidade para todos, pessoas com diabetes ou saudáveis. É importante saber que existem gorduras benéficas para a saúde, como as monoinsaturadas, que podemos encontrar, por exemplo, no azeite e nos frutos oleaginosos.

O que não significa que se deva comer frutos oleaginosos indiscriminadamente. Estes possuem uma gordura saudável mas um valor calórico igual à gordura não saudável o que, em excesso, contribui para o aumento de peso.

A gordura polinsaturada, como os ácidos gordos ómega 3, presentes no salmão ou cavala, também é muito benéfica na proteção contra as doenças cardiovasculares.

Por outro lado, existem gorduras muito prejudiciais para a saúde, que elevam o mau colesterol (LDL), favorecem o aumento de peso e aumentam o risco de doenças cardiovasculares.

É o caso das gorduras saturadas que encontramos nas carnes vermelhas, enchidos, queijos gordos, natas, entre outros. Numa alimentação saudável, estas gorduras não devem ultrapassar os 7% da energia diária total.

As gorduras trans (formadas por um processo de hidrogenação), presentes sobretudo nos produtos de pastelaria, algumas bolachas e produtos semelhantes, devem ser evitadas.

Os diabéticos devem evitar ocasiões especiais

FALSO: Há pessoas que optam por reduzir o convívio com amigos e familiares e até evitam ir a festas, com receio de não resistirem a um doce e ficarem com as glicemias muito elevadas.

Por outro lado, também tentam assim evitar o constrangimento de ver os familiares a ‘controlarem’ o que escolhem provar ou ter de justificar todas as opções alimentares.

A verdade é que a diabetes e os respetivos cuidados alimentares não devem pôr em causa a vida social de quem tem a doença. Há uma estratégia que se pode usar para ingerir um doce num dia festivo, sem que a glicemia fique desnivelada.

Nesse dia especial podem reduzir-se ou eliminar-se os hidratos de carbono de outra refeição para incluir os do doce… Assim, a glicemia não sobe tanto.

Claro que o ideal será fazer esta experiência quando se tem um controlo aceitável da diabetes e verificar os resultados, medindo a glicemia cerca de duas horas depois.

A água é mesmo essencial

VERDADEIRO: A água está no centro da Roda dos Alimentos e não é por acaso. A hidratação é extremamente importante. As necessidades de água são variáveis, no entanto, em média, todos devemos beber entre 1,5 a 2 litros de água diariamente.

Quem tem diabetes não pode tocar no açúcar

FALSO: Por exemplo, numa situação de hipoglicemia (valor baixo de açúcar no sangue) moderada, a água com açúcar é, sem dúvida, o melhor tratamento. Como o açúcar é rapidamente absorvido pelo organismo, regista-se uma subida mais acelerada da glicemia para os valores normais.

O açúcar presente nos doces não serve para tratar uma hipoglicemia, porque, devido à existência de outros nutrientes – como a gordura, por exemplo – não apresenta uma absorção rápida, tendo que passar por todo o processo de digestão até chegar ao sangue.

Por este motivo, facilmente se conclui que uma pessoa com uma hipoglicemia não a conseguirá tratar corretamente se ingerir um bolo, um gelado ou um chocolate.

Será melhor reservar estes alimentos para ocasiões especiais, de preferência fazendo a compensação que referida nesse ponto mais acima.


O Dr. João Ramos é especialista em Medicina Geral e Familiar e Medicina do Viajante. Apresentador e consultor científico da rubrica “Diga Doutor” na RTP.

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Autor

Dr. João Ramos