Atualmente, existe muita informação dispersa e contraditória sobre se o consumo de leite é ou não apropriado para a saúde. Falei com uma especialista para ter a certeza.

 Os temas da intolerância à lactose e da alergia à proteína do leite de vaca continuam a despertar algumas dúvidas e a quantidade de informação que prolifera no mercado não tem ajudado. Devemos ou não beber leite e em que circunstâncias? Para obter respostas concretas, coloquei algumas questões a quem realmente percebe do assunto. Conceição Calhau é nutricionista, Professora Associada com Agregação de Nutrição e Metabolismo na Nova Medical School – Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, onde também coordena a Licenciatura em Ciências da Nutrição, e investigadora do CINTESIS, onde dirige a linha Medicina Preventiva & Desafios Societais.

1. EM CIRCUNSTÂNCIAS NORMAIS, A PARTIR DE QUE IDADE SE PODE DAR LEITE DE ORIGEM ANIMAL A UM BEBÉ? 

 A Organização Mundial da Saúde (OMS) preconiza a amamentação exclusiva até aos seis meses nas políticas de incentivo à amamentação, durante o primeiro ano de vida.

 

2. É VERDADE QUE OS ADULTOS NÃO DEVEM BEBER LEITE?  

Não é verdade. Os lacticínios, nos quais se incluí o leite, fazem parte do padrão da Dieta Mediterrânica e sempre se incluíram nas recomendações da Roda dos Alimentos. O leite, tal como os outros produtos do seu grupo (queijo, iogurte, etc.), é um alimento nutricionalmente muito rico, não só em cálcio ou iodo, como em vitaminas lipossolúveis (se não for leite ‘magro’).

 

3. QUE QUANTIDADE DIÁRIA É RECOMENDADA?

 A Dieta Mediterrânica sugere um consumo frequente e moderado de produtos lácteos. As recomendações populacionais para adultos, saudáveis, será de duas a três porções por dia. Perante a opção ou necessidade de excluir o leite de vaca da dieta, deve ser feita uma correção com substitutos.

4. A INTOLERÂNCIA À LACTOSE PODE SER DESENVOLVIDA EM QUALQUER IDADE? 

Antes de responder diretamente à sua pergunta é necessário perceber a diferença entre deficiência de lactase, má absorção da lactose e intolerância à lactose.

 A deficiência de lactase caracteriza-se por uma atividade menor da enzima lactase, essencial para a digestão do leite, por comparação a indivíduos ditos ‘normais’. A má absorção da lactose, por sua vez, caracteriza-se por uma falha na absorção intestinal de uma fração significativa da lactose ingerida. Já a intolerância à lactose é uma síndrome cuja sintomatologia (dor abdominal, inchaço abdominal, flatulência, entre outros) ocorre após a ingestão de lactose. Sobretudo em crianças, pode também acontecer casos de diarreia.

No que diz respeito à má absorção da lactose ela pode ser primária ou secundária. Neste segundo caso, não é genética e pode ser transitória. Ocorre já na idade adulta, em adultos ‘tolerantes’ que, por causa de uma patologia gástrica e/ou intestinal, perdem a capacidade de expressar a enzima. Uma das causas poderá ser a SIBO (small intestinal bacterial overgrowth). Para confirmação de suspeita de diagnóstico, além da história clínica, deve ser realizado um teste específico.

Já a má absorção da lactose primária pode ter três subtipos: congénita, adquirida, ou do desenvolvimento.

A má absorção da lactose primária congénita, autossómica recessiva, é muito rara. Nestes casos os bebés nascem sem a capacidade de hidrolisar a lactose. Antes do século XX esta situação não era compatível com a vida. Hoje, desde que feito o diagnóstico à nascença e seja seguida uma dieta sem lactose, não há risco de vida.

Por sua vez, a má absorção da lactose primária adquirida, autossómica recessiva, é muito frequente. Caracteriza-se pela perda da expressão da enzima depois do desmame. A manifestação pode acontecer na primeira infância ou na vida adulta, frequentemente antes dos 20 anos de idade. Nos anos 70, século passado, reconheceu-se que esta condição era frequente em grande parte da população mundial. Na Ásia, África e América, grande parte da população adulta, nativa, não produz lactase, o que faz com que a má absorção da lactose primária adquirida seja mais frequente nas populações destas regiões, e menos frequente na população europeia, caucasiana, muito em particular na população do norte da Europa.

Por último, a má absorção da lactose primária do desenvolvimento caracteriza-se por uma deficiência em lactase que ocorre nos bebés prematuros (entre as 28-32 semanas de gestação). Nesta situação recomenda-se a exposição precoce à lactose de modo a ‘induzir’ a expressão da enzima. Trata-se de uma situação transitória.

Respondendo diretamente à sua pergunta: é importante as pessoas perceberem a diferença intolerância e má absorção da lactose que, como vimos, consoante o caso e o tipo, pode acontecer em qualquer idade.

 

5. A INTOLERÂNCIA À LACTOSE É O MESMO QUE ALERGIA À PROTEÍNA DO LEITE? 

 São temas completamente diferentes. A intolerância decorre da dificuldade do organismo em processar a lactose (açúcar do leite), devido à diminuição ou à ausência de lactase (enzima que a digere). A sintomatologia da intolerância é desencadeada, sobretudo, na sequência do seu efeito higroscópico, osmolar. Já a alergia diz respeito a uma resposta do sistema imunológico às proteínas do leite. Os sintomas podem ser digestivos, cutâneos, respiratórios ou até culminar numa reação anafilática.

 

Quer saber mais sobre o leite, a lactose e as respetivas alternativas alimentares? Deixe-nos as suas questões.
Prometo voltar ao tema com mais dicas e opiniões de especialistas.

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Comentários2

  1. Pedro Soares 18/07/19 03:45 | 28.04.2019 1:22 PM

    Excelente artigo.

    Responder
  2. Catarina Furtado
    Catarina Furtado 18/07/19 03:45 | 10.05.2019 1:48 PM

    Obrigada, Pedro.
    A qualidade da informação que disponibilizo no meu blog é uma das principais preocupações do movimento À Roda da Alimentação.

    Responder

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